segunda-feira, 3 de agosto de 2020

‘Parece milagre’, diz prefeito de cidade baiana que não registrou nenhum caso de covid-19


A covid-19 já toma conta de quase todo o território baiano e, até este domingo (2), somente nove municípios ainda não tinham registrado casos da nova doença, segundo dados da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI). Exceto pela cidade de Gavião, no Centro-Leste do estado, todas as outras que seguem livres do coronavírus ficam localizadas no Oeste da Bahia, região com a menor concentração de casos.

Os municípios são Brejolândia, Brotas de Macaúbas, Canápolis, Érico Cardoso, Ipupiara, Gavião, Novo Horizonte, Sítio do Mato e Tanque Novo. Estes locais não afetados têm entre 4 mil e 16 mil habitantes.

Prefeito da cidade de Tanque Novo, Vanderlei Marques Cardoso (PCdoB) conta que foram identificados três casos suspeitos na última semana por lá, mas todos os resultados dos testes rápidos e também os do tipo PCR — o mais confiável — deram negativo.

O gestor acredita que o fato de a pequena cidade de pouco mais de 16 mil moradores — localizada a quase 712 Km de Salvador — ainda não ter registrado infectados pode estar relacionado a ao menos três explicações: restrições severas de funcionamento do comércio e circulação de pessoas e veículos logo no início da pandemia; colaboração da população por meio do disk denúncia de aglomeração e um tantinho de ajuda divina porque “parece um milagre”, brinca ele.

No começo dos casos no estado, a prefeitura municipal decidiu fechar praticamente todos os serviços da cidade, incluindo bancos e casas lotéricas. Só após a medida federal que determinou liberação de abertura de atividades consideradas essenciais foi que a cidade as reativou. “A partir daí, fomos chamando cada setor da economia, conversando com empresários, pequenos comerciantes, academias, pizzarias, e fomos estabelecendo termos de restrições para poder flexibilizar cada um”, conta.

Segundo ele, todo o comércio permanece ativo em Tanque Novo, mantendo condições específicas para funcionamento. Restaurantes, por exemplo, que antes tinham vinte mesas hoje só podem ter cinco. Na feira livre da cidade está proibida a instalação de barracas de proprietários que não sejam moradores do município, justamente para evitar a chegada de forasteiros.

Nas entradas para o município, que é cortada pelo BA-156, seguem instaladas barreiras sanitárias que fazem o controle do fluxo de pessoas e veículos das 6h às 18h. Moradores com histórico de viagem a outras cidades são monitorados pela Vigilância Epidemiológica e indicados a se manterem em isolamento por duas semanas.

Mesmo assim, a administração municipal enfrenta problemas e anda preocupada com as pessoas que acabam dando jeito de driblar as regras e a fiscalização. O prefeito relatou, inclusive, que enfrentou um embate pessoal com proprietários de ônibus que estavam evitando a barreira, liberando passageiros na estrada a cerca de 20 Km antes.

“A gente não está fazendo bloqueio de passagem. A gente só para os ônibus em trânsito e pergunta se há pessoas para descer. Se não tem, o veículo é apenas acompanhado até sair da cidade para ver se ele não para em outro local, se não deixa pessoal escondido. Nós temos uma preocupação intensa com isso, só queremos saber quem está chegando para poder fazer o acompanhamento integral e saber quem está em quarentena”, explica.

Outro problema apontado é que, para poder colocar barraca na feira, já tem gente abrindo cadastro de empresa na Junta Comercial do município. “Lá, eles alugam o ponto e vão na prefeitura pedir o direito de funcionamento através do alvará e a gente não pode negar porque está dentro da lei”, conta. A galera que gosta de bater um “baba” — futebol de várzea — também tem dado dribles na fiscalização e a prefeitura já teve conhecimento de um campo que foi aberto mata adentro para fugir da guarda municipal e da polícia militar.

Apesar disso, a maioria da população tem colaborado, afirma o prefeito. Segundo ele, o canal de denúncia de aglomeração e descumprimento de decretos é a ferramenta que mais tem ajudado a manter a cidade sem registro de casos da doença. “A comunidade também tem ajudado muito. Quando chega uma pessoa que foge da barreira, que entra por estradas vicinais, escondido, ou de madrugada, logo um vizinho avisa ao sistema de monitoramento e isso tem nos ajudado muito, é super importante”, avalia.

Já em Canápolis, a 861 Km da capital, a prefeita Myriam Gonçalves Teixeira (PR) também aposta que o canal de denúncias tem sido fundamental para evitar que o vírus chegue à cidade. A gestora disse que recebe mensagens até no telefone pessoal e assim consegue orientar a fiscalização para manter o município de pouco mais de 9 mil habitantes livre do inimigo mundial. Em Canápolis, um dos grandes desafios têm sido os bares e festas, alvos constantes da vigilância epidemiológica, guarda civil e militar.

Para ela, o porte e a própria localização geográfica da cidade, que fica mais recolhida, também contribuem para isso. “Logo no início da pandemia, tivemos medidas mais severas porque tomamos logo aquele susto e também pela cidade ser pequena e não ter tanta estrutura. Fomos o 1º município do Oeste a tornar obrigatório o uso da máscara e a população aderiu de forma impressionante, ficamos orgulhosos”, recorda ela.

Por lá, também há barreira sanitária e todas as atividades comerciais seguem funcionando, mas com restrições. Um centro de referência foi montado para que pessoas com sintomas gripais evitem ir ao hospital municipal, a fim de evitar possíveis contágios na unidade. Mesmo assim, já está sendo preparada uma área de isolamento próprio para a doença no hospital.

A grande cidade mais próxima é Barreiras, que é a referência de praticamente todo o Oeste, e fica a cerca de 300 Km de Canápolis, indo pela estrada pavimentada. Barreiras tem 40 leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e estas estavam com 63% de ocupação neste domingo. “Então, o que eu digo diariamente é: ‘Vamos nos cuidar porque o que nos protege mesmo é o autocuidado”, conclui Myriam.

Moradora de Érico Cardoso, a dona de casa Iraci Oliveira, 67 anos, acredita que a explicação para que os casos não tenham chegado na cidade é divina. ” O povo aqui parece que está vivendo na ilusão.Como não tem caso nenhum confirmado a cidade está cheia de gente batendo perna na rua e sem máscara. Acho que Deus está guardando nossa cidade”, comenta ela que está dentro de casa com o filho, mas o marido não respeita o isolamento. “Eu e meu filho estamos dentro de casa, mas ele vive na rua. Já ficou doente, fez teste, mas deu negativo”, completa. (Correio)

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